Vini Vida colocou um vinil na vitrola e tocou sua guitarra afinada. O som viciou M.A.; a amizade crescia a cada descoberta de tons e ritmos. Muitas faltas na escola. Barulho que incomodava os pássaros.
Morador do vilarejo, Sr. Buriti era o mais idoso e o mais "quadrado", segundo Miguel Angelo. Tudo por causa de suas idéias conservadoras. Quase um século de vida, cara rasgada de rugas.
Miguel Angelo observava e sonhava com as estrelas. Seu pai dizia que estrela a gente via quando passava fome ou tomava muito sol na cabeça. Longas conversas alienígenas, sob o luar do sertão.
Tudo na vida tem um preço. Miguel Angelo estava aprendendo a lidar com as responsabilidades. Mais maduro, sabia que tinha talento e que precisaria fazer escolhas.
Foi marcante o seu contato com o dicionário. Sua mãe sempre dizia: “Você não tem educação”. Ingênuo, Miguel Angelo pensava que isso significava falta de dinheiro.
Aventureiro e expedicionário, M.A. costumava cruzar os pastos, em busca de fósseis de dinossauros. Nada encontrou, mas foi assim que descobriu a arte rupestre.
Quando criança, Miguel Angelo sonhou com Picasso e Van Gogh. Contou para o pai que tinha visto dois homens carregando tintas e pincéis, desenhando pelas paredes. “Você deve ter sonhado com pixadores”, explicou o pai.
Observador, foi quando uma pedra caiu no seu pé e o sangue escorreu na areia, que Miguel Angelo percebeu o contraste de cores. Vermelho viria a ser cor fundamental em suas pinturas rupestres.
M.A. tinha trauma de palhaços e máscaras em geral. Tudo por causa de um sonho. Uma vez ele dormiu durante a aula e acordou suando frio. Contou para a professora que um mascarado tinha esfaqueado a sua família. Ficou 2 dias escondido na escola, com medo de voltar para casa.
Chorou dias e dias após a morte de seu pardal. Foi no enterro do bichinho que ele conheceu o amor, o valor dos amigos, e resolveu mudar de vida. Passou a frequentar a escola uma vez por semana. Confessava uma vez por mês, mas ainda mentia.
"Fome" foi a única palavra que Miguel Angelo aprendeu com o pai. Ele corria 5 km por dia, para voltar para a casa, depois de roubar rapadura na feira. "Coisa de moleque", dizia a sua mãe.
Filho de um pipoqueiro e uma costureira, teve uma infância pobre e sofrida. Perdeu o único irmão num acidente de bicicleta, causado pelo consumo de uma garrafa pet de 2 litros com aguardente local.